O homem antes do árbitro. A história de um erro, que mudou a história

64
Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

“Acabou o jogo, colocamos a cabeça no travesseiro e tentamos dormir. Mas os lances ficam passando. Erros, acertos, como toda pessoa. Aí, quando você acerta mais do que erra, consegue dormir antes. É muito louco estar ali, mesmo que tudo fique passando pela sua cabeça depois. E agora eu estou voltando. Com o tempo necessário para que as pessoas me permitam viver novamente tudo isso.

O público está preparado para ver o Thiago em ação num grande jogo? Espero que sim porque eu estou me preparando para isso. Que aquelas pessoas que tacharam o árbitro como o que errou, o safado, o vagabundo, possam me ver novamente e saber que eu não sou safado, vagabundo, que tenho família. Que não me taxem mais como ladrão”.

Thiago Duarte Peixoto, 39 anos, árbitro de futebol.

Foto: Agência Palmeiras

O momento era de ascensão na carreira. Até que aconteceu um erro absurdo. Inesquecível. Histórico. Horrível. Pode usar a palavra que você quiser. Thiago Duarte Peixoto sabe o tamanho da besteira que fez ao expulsar um jogador errado durante o clássico Corinthians x Palmeiras do Campeonato Paulista de 2017. Mas aquele não foi o primeiro jogo importante que o árbitro apitou. Ele já tinha conduzido até outro Dérbi, além de semifinal de Paulista, semifinal de Copa do Brasil no Maracanã… Era uma carreira em alta, que foi travada por aquele erro.

O árbitro paulista até voltou a participar de jogos importantes desde então. Na última rodada do Campeonato Brasileiro, há três dias, foi assistente adicional de Vasco 0 x 0 Ceará, na Arena Castelão. Em 2019, espera dar o próximo passo: apitar de novo na elite.

Seu erro teve consequências, mas também algumas causas, como ele explica nesta longa entrevista ao UOL Esporte. É a primeira vez que Thiago Duarte Peixoto fala, aberta e longamente, sobre o episódio de quase dois anos atrás, que considera um “momento superado”. O homem antes do árbitro também conversa sobre a fama de arrogante e performático em campo, o trabalho psicológico pós-Dérbi (que teve até viagem a Machu Picchu) e os sofrimentos da vida pessoal, como a morte da esposa dez dias após dar à luz ao seu primeiro filho, Gael, e também a morte da mãe, que indiretamente gerou uma onda de fake news e acusações contra o próprio Thiago.

Há uma cara por trás do apito. E aqui ela está lavada.

Não é arrogância, é apenas intensidade

Durou aproximadamente uma hora e meia a entrevista com Thiago Duarte Peixoto, realizada entre o jardim e a academia do prédio em que mora, em São Paulo. Parte deste tempo foi destinada a uma sessão de fotos. Talvez tenha sido este o momento em que o árbitro mais se revelou. Foi pedido para que ele fizesse uma expressão séria para um registro. Thiago, então, cruzou os braços, levantou o queixo e olhou a câmera por cima. Poucos segundos depois, antes que a foto fosse tirada, ele mesmo se corrigiu: “É para ser sério, não marrento.”

Thiago está preocupado com sua imagem. Ele nunca esteve tão próximo, desde o erro no Dérbi, de voltar a apitar em alto nível. Pode ser que isso já aconteça no Campeonato Paulista de 2019, segundo a Federação Paulista de Futebol. Então, ele quer mostrar que mudou, que está mais maduro. E mesmo assim, as reações incisivas que tem em campo se repetem de modo natural fora dele. Ele gesticula e é performático até dando entrevista. Justifica a fama de arrogante justamente pela intensidade dos gestos. Ele é assim, por mais que tente disfarçar.

Ele também tirou foto mostrando cartão – um clichê em imagens de árbitros de futebol. Na hora de escolher entre o amarelo e o vermelho que havia levado para a sessão de fotos vieram as lembranças do Dérbi, o vermelho exibido para Gabriel que deveria ter sido só um amarelo para Maycon. Preferiu o amarelo.

Thiago Duarte Peixoto quebrou um protocolo no dia de seu erro em Corinthians x Palmeiras. Após o jogo, já consciente da dimensão de tudo e sob críticas pesadas de jogadores e do presidente do Corinthians, Roberto de Andrade, que disse que ele era um “pavão”, “deveria ser banido do futebol” e “só apitar jogo no Acre”, o árbitro deu uma entrevista coletiva na Arena Corinthians. A voz embargada e os olhos vermelhos revelaram o choro. O depoimento mostrou fragilidades que raramente um juiz de futebol exibe. “Espero, do fundo do meu coração, que minha carreira continue”, disse na ocasião, após comparar seu erro ao de um jogador que perde um gol ou de um jornalista que usa uma palavra errada.

Quase dois anos depois, ele não se arrepende da entrevista em Itaquera. Não que tenha ajudado em alguma coisa, mas foi seu jeito de desabafar. “Naquele momento, tudo que eu queria era falar. Eu ia para casa, o sol ia nascer e ia ser muito difícil para mim. Falando o que aconteceu, eu colocaria para fora. Não foi para me fazer de vítima, mas para explicar o que aconteceu às pessoas que amam futebol, que pagam o pay-per-view, que escutam na rádio”, diz o árbitro, que se lembra de ter sido questionado pelo departamento de comunicação da FPF se gostaria de falar.

“Aquela emoção que rolou não foi de caso pensado. Ninguém fala: ‘agora eu vou lacrimejar’. Só ator consegue. Foi um desabafo. Eu precisava colocar para fora ou ia me dar um treco”.

Chateação, reflexão, viagem e amigos: como superar a cagada

Foto: Paulo Camilo/UOL
A primeira pessoa com quem Thiago conversou depois do erro, sem ser assistente, assessor ou jornalista, foi o pai, Onílson. Geralmente crítico, ele percebeu a gravidade da situação e mudou o comportamento: “Não veio cobrança, nada. Só o afago de pai”, relembra o árbitro. Recluso nos dias seguintes, ele foi julgado e afastado do futebol por 60 dias. Foi difícil tirá-lo do chão, inclusive para seguir o trabalho como personal trainer enquanto o futebol estivesse estancado: “No primeiro momento, você fica chateado. Depois começa a refletir”.

O árbitro fez uma viagem para desanuviar. Foi para o Peru em uma trilha de cinco dias ao lado de um aluno da academia e uma amiga: “Tem uma coisa mística lá”. Depois, iniciou trabalho psicológico em sessões às terças-feiras com uma profissional da FPF: “A entidade e a comissão de arbitragem me deram todo o respaldo possível no momento, me senti até lisonjeado. A confiança não pode se esgotar em um lance, e eles se preocuparam com o ser humano. Sou grato. A vida é um aprendizado, estou aqui para aprender eternamente. Quem sabe, dentro de campo, eu possa dar a resposta de que isso tudo foi benéfico.”

Amigos da arbitragem também foram importantes no processo de superação. Flávio Rodrigues de Souza, que Thiago define como alguém “que tem uma energia muito boa”, é dos mais próximos. Raphael Claus é outro: “Estou fazendo jogos de árbitro adicional no Brasileiro e tenho acompanhado muito o dia a dia dele. Tem feito muito por mim no nível de confiança. Gostaria de agradecer.”

Depois da cagada no Dérbi de 22 de fevereiro de 2017, Thiago Duarte Peixoto só voltou ao trabalho em 29 de abril: Monte Azul 1 x 0 Taboão da Serra, pela Série A3 do Paulista.

Por UOL