Está em atividade o primeiro Sítio Cultural de Chapecó

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FOTOS: Assessoria de Imprensa – Gira Sol Cultural

Você já pensou em fazer algo pelas pessoas da sua cidade? E se isso incluísse abrir as portas da sua casa para um grande movimento coletivo que garante o direito das pessoas: acesso à arte e à cultura? Pois a contadora de histórias e pesquisadora Josiane Geroldi teve esse ideia, colocou seu projeto em prática e iniciou uma revolução que está mudando a vida da sua comunidade.

A ideia surgiu devagar, como uma vontade, há oito anos. “Quando eu comecei a trabalhar profissionalmente com contação de histórias, fundei a Cia ContaCausos, me aproximei mais das escolas, da formação de leitores e da  pesquisa na narração de histórias tradicionais da região. Começou a se apresentar pra mim uma vontade de ir morar na roça, onde eu tivesse um sítio que eu pudesse contar histórias para as crianças. Essas histórias geralmente acontecem no mato e me parece que se as crianças tivessem a oportunidade de ter um lugar no mato para ouvir, talvez as histórias ficassem mais vivas e elas tivessem uma experiência mais significativa com a escuta e com o imaginário, enquanto vivência das histórias do nosso lugar”, conta Josiane.

A partir daí um processo começou. Em 2014, após muita procura ela achou o lugar certo: Linha Tafona. E foi num sítio, no interior de Chapecó que iniciou um bonito caminho de transformação. Aos poucos, com o cachê de suas apresentações artísticas, ela projetou, comprou materiais, imaginou, mudou e construiu um sítio cultural. “Foi um processo lento, pois tudo demanda de muito recurso financeiro e de mão de obra. Os recursos foram dos cachês das apresentações da Cia ContaCausos e de projetos que a companhia desenvolve em parceria com instituições como o Sesc, Prefeituras, Festivais de Teatro, e também com o apoio de amigos, um pagou uma parcela do telhado, outro do Rio de Janeiro enviou um depósito. O  arquiteto pensou o projeto com estruturas econômicas, que utilizassem matérias disponíveis na região e reaproveitamento. Desde o começo tudo o que foi planejado aqui no sítio, sempre foi pensado no momento em que a gente pudesse acolher as pessoas para interagir com o espaço”, explica.

Além do recurso financeiro teve o recurso humano. “Aos poucos a gente percebeu que quanto mais as pessoas vão se aproximando, se apropriando do lugar e querendo que esse lugar aconteça, as coisas vão acontecendo mais rápido. Então começamos a fazer puxirões para que as pessoas viessem nos ajudar a fazer a reforma do chalé e a pintura”.

Para o músico paulista e contador de histórias Paulo Freire, o que ele viu acontecer foi um verdadeiro milagre. “Pensando na quantidade de trabalho que isso demandava, e que já imaginava que ela iria fazer isso tudo só, quer dizer, sem qualquer apoio financeiro, apenas com seu trabalho de contadora de histórias, me deu um certo nervoso. Disse a ela ‘Dona Jô, a siora é arrojada’. A ideia na cachola e os amigos de coração levantando o sonho. Mutirões de amigos derrubando parede, pintando, carregando pedra, traçando caminhos e mais um mundo de serviço. O tempo foi passando, e quando vi o milagre estava feito e pronto para a inauguração”.

Transformação

Aos poucos o sítio recebeu um nome “Sítio Cultural Nossa Maloca”, foi estruturado, colorido, estava pronto para receber as pessoas. O Bosque ganhou um palco para que mais vozes fortaleçam a cultura popular. No quintal foi construída a casa da bruxa. E o chalé, agora reformado, ganhou um nome “Teatro Rural Chica Pelega”. O primeiro Teatro Rural da história de Chapecó, um dos poucos em funcionamento em Santa Catarina. O nome homenageia um símbolo de força das mulheres camponesas na Guerra do Contestado.

Se não bastasse tudo isso, Josiane foi mais longe. Criou no sótão do Teatro Rural uma biblioteca comunitária para atender as crianças do interior de Chapecó. Segundo Roni Robson de Souza, morador da Linha Tafona há 9 meses, a família está adorando ter uma biblioteca perto de casa. “As minhas filhas já pegaram livros na biblioteca e já fizeram a troca. Estão lendo o segundo. E isso é muito bom, pois as crianças vão aprendendo a gostar de ler e a gostar de ouvir as histórias contadas. Ter uma biblioteca aqui é vantajoso para todos, mas principalmente para as crianças que são muito ligadas ao celular, às tecnologias e à tudo pronto. Através da leitura elas aprendem esse novo jeito de entender as coisas”, conta.

Para Vilmo José de Oliveira, pedreiro que trabalhou junto com seu filho na reforma e construção no sítio, foi um dos projetos mais interessantes que já participou. “Foi gratificante ter colaborado pra esse projeto porque eu sabia que ia ser pro bem das crianças. Fizemos tudo com muito cuidado, trocando ideias e ficou muito bacana”.

Praticamente pronto, o projeto já teve a sua inauguração. Contou com apresentações artísticas, exposição fotográfica, Teatro Lambe-Lambe com Gerli Mendes, intervenção poética com o Grupo Vertigem, show com o paulista Paulo Freire e contação de histórias com Cia ContaCausos. A atividade reuniu artistas, produtores culturais, pessoas de longe, vindas de diversos estados como São Paulo, Santa Catarina, Paraná, e também pessoas de perto, integrantes da comunidade da Linha Tafona, que nunca haviam assistido uma apresentação artística.

Para o professor universitário Valdemir Antônio Oliveira, que contribuiu em todos os processos de criação do Sítio, a Nossa Maloca é um espaço vivo. “É uma extensão de uma realização das muitas utopias e sonhos que tive na juventude. A arte, a poesia, a música, o cinema, a literatura, tudo se materializa nesse espaço. A importância disso vai além da comunidade, de Chapecó e da região, é importante para o Estado e para o País, ter esse espaço”.

Próximo passo

A partir de agora o Sítio Cultural Nossa Maloca começa uma nova fase. Premiado pelo Edital de Fomento e Circulação das Linguagens Artísticas de Chapecó pela ação “Nossa Maloca tem histórias – Circuito de arte e cultura rural”, recebe crianças das comunidades rurais. A primeira instituição educativa a visitar o espaço foi a Escola Básica Municipal Rodeio Bonito, que levou seus 35 alunos para passar a tarde no sítio. Eles participaram de intervenção com a Bibliobike, leram livros de sua escolha no bosque, entraram em contato com a natureza, visitaram a casa da bruxa, assistiram ao Espetáculo “Foi coisa de Saci”, e como nesse lugar a imaginação não tem limites, conheceram o sacizeiro, caçaram um saci e levaram o “danado” para casa, e ainda pegaram livros emprestados na biblioteca comunitária.

“Foi um dia inesquecível para as crianças. Esse espaço é incrível e temos certeza que tudo o que eles vivenciaram, a imaginação, a parte lúdica, o encantamento, a criatividade, vai contribuir com as ações dentro da escola, pois influencia diretamente no seu desenvolvimento”, disse a Coordenadora Pedagógica da Instituição, Giovana Formentom.

A partir de agora mais 4 escolas públicas do campo irão visitar e participar das atividades no Sítio, e posteriormente o espaço também receberá outras instituições de ensino. A ideia é contribuir para os processos de aprendizagem, formação e sensibilização de leitores, através das atividades de mediação de leitura, contação de histórias, oficinas,  e com isso ressignificar a zona rural do Município, fomentar o turismo cultural de eventos, além de descentralizar a oferta de apresentações culturais e aproximar as comunidades rurais dos artistas chapecoenses por meio de apresentações gratuitas.

As atividades do projeto têm como objetivo principal oportunizar que as pessoas tenham experiências artísticas. “Eu acho que é a maneira com a gente possibilita as ações que faz com que as pessoas tenham a experiência ou não. É um aprendizado muito grande criar essas oportunidades para que as pessoas possam experienciar esse lugar e essas apresentações, sempre pensando no desenvolvimento humano e no encontro dessas pessoas”, finaliza Josiane.

“Eu espero que Chapecó viva o encantamento que o espaço possibilita. Que as idades, os tempos, as escolas, os artistas, a comunidade local, viva espaço. Espero que continue latente e respirando. Acho que é perfeitamente possível viver os tempos de urbanidade, mas considerar que é preciso voltar também pra terra, pra raiz, pra árvore, pro mato, pra leitura, pra arte, pro sonho, pra fantasia, pra vida e eu acho que a maloca possibilita tudo isso”, acrescenta o Professor Valdemir.

Texto Camila Almeida