BRUMADINHO: Agricultores denunciam descaso do governo e abandono da Vale após tragédia

Lucilaine Aparecida Fonseca e sua escassa produção atual - FOTO Reprodução/G1/ Patrícia Fiúza

A produtora rural Fernanda de Oliveira, representante de um grupo de agricultores da região de Piedade do Paraopeba (MG) denuncia que estão desamparados pelo poder público e pela Mineradora Vale após o rompimento da barragem de Córrego do Feijão, há exatos cinco meses, neste dia 25.

Para a reportagem do G1, Fernanda reclama:

“Toda vez que a gente recorre ao município, a pergunta é sempre a mesma: a lama passou pelo seu quintal? E a resposta vai ser também sempre a mesma: não, ela passou na minha alma”.

Ela se mudou para a cidade com os dois filhos, ainda crianças, há três anos. Ela escolheu trocar o estresse da vida em Belo Horizonte pelo sossego do povoado de Piedade do Paraopeba, em Brumadinho, em busca de um sonho: “viver uma vida mais tranquila e ajudar produtores que vivem da agricultura familiar a expandirem e a formalizarem seu negócio”.

Em seu terreno, passou a dar aulas de agricultura orgânica e reuniu um grupo de 22 produtores locais no projeto Feira Movimento. Juntos, conseguiram um espaço fixo para vender os produtos. “Em seis meses, o projeto aumentou em 10% a renda do pessoal”, disse.

Os negócios da região, que é considerada cinturão verde da Região Metropolitana de Belo Horizonte, iam bem, até o dia 25 de janeiro, quando a barragem de Córrego do Feijão se rompeu, deixando pelo menos 246 mortos, e outras 24 pessoas ainda estão desaparecidas.

A tragédia aconteceu a pelo menos 28 quilômetros do local onde Fernanda e os outros 22 agricultores vivem. Mas acabou afastando os clientes da região.

“Falou que é Brumadinho, todo mundo teme, acha que é produto contaminado, tanto por parte da água, quanto por parte do solo”, lamenta.

Fernanda, que ainda guarda fotos da frente da sua casa tomada pelo verde da horta, agora lamenta o mato alto que tomou conta de tudo. Nem demanda para os cursos que ela ministrava existe mais.

Segundo Fernanda, houve uma tentativa de acordo com a Vale, com apoio da Defensoria Pública e Ministério Público, para recebimento de indenização e garantia que a empresa pagasse dívidas dos agricultores. “Tentamos acordo duas vezes com a Vale. Fizemos a proposta de um valor indenizatório e o pagamento das dívidas, porque produtores investiram, mas houve uma negativa da empresa,” disse.

A família de Lucilaine Aparecida Fonseca foi uma das que recorreu a empréstimos para investir e, agora, está endividada.

Ela, o marido e os pais começaram a viver exclusivamente da produção de hortaliças e de leite. Eles vendiam cerca de 300 pés de alface em um mês, além de colher outras hortaliças. Chegaram a vender para hotéis, restaurantes e até para o condomínio de alto luxo Alphaville.

Após o rompimento da barragem, a produção é escoada apenas para amigos e para a escola dos filhos do casal.

Perto dali, uma casa simples com tijolos à vista esconde uma produção de tilápias orgânicas que já foi grandiosa. A produtora, Maria Betânia da Silva, chegou a vender uma tonelada de peixes por mês. Com o rompimento da barragem em Córrego do Feijão, as vendas despencaram. “Hoje, não vendo nem dez quilos”, lamentou. (Fonte G1).